E se fosse demais pra mim?

Éllen Regina Pires



Eu tinha sete anos e podia voar. Vocês podem imaginar o que é isso? Poder voar, dar rasantes, voar ao lado de uma andorinha, sentir o vento acariciando todo o corpo; voar alto, baixo, rápido, bem devagarinho e, o melhor de tudo, voar sem precisar de capa. Eu voava! E sempre que isso ocorria em meus sonhos, no dia seguinte coisas boas aconteciam. Minha mãe fazia meu almoço predileto, meu irmão deixava eu andar de bicicleta, meu pai permitia que eu brincasse com a máquina de escrever, me era permitido brincar até mais tarde na rua.

Mas teve uma noite em que eu voei e o dia seguinte foi muito, muito triste. Naquela noite, sonhei que estava voando e ao mesmo tempo brincando com minha amiga Mônica. Ela era linda, tinha olhos verdes, com sardas no rosto, sorriso meigo, frágil, parecia uma anja. No sonho voei muito, me diverti, ri, cansei e dormi. Na manhã seguinte, levantei pensando o que aconteceria de maravilhoso, afinal, o meu sonho tida sido show. Provavelmente meu pai me daria moedas para comprar chicletes ou um sorvete quente, ou então, meu irmão não iria me obrigar a brincar de carrinho com ele. Enquanto pensava nesses belos desejos, começou a tocar o sino da igreja anunciando uma morte. Um som triste, uma melodia quase infantil, já que aquele sino tinha o poder de definir em suas badaladas se era homem, mulher ou criança. Minha mãe abriu a porta, conversou com a vizinha e voltou. Não gostei nadinha do modo como ela me olhou, sentou ao meu lado, pegou minha mão e anunciou bem devagar, meio sem jeito, que minha amiga Mônica tinha falecido. FALECIDO? O que era isso? Mas eu já chorava. O sino já tinha dado seu recado.

Naquela época, costumava-se velar a pessoa em casa. Eu não queria ir, mas ela era minha amiga, ela sabia que eu voava, eu devia um “tchau”. Fui. Achei que eu não conseguiria mas, quando entrei no quarto, espiei entre as mãos, braços e pernas de gente grande, e vi minha amiga deitada na cama, vestida de branco, com seu cabelo comprido enfeitando os ombros e o peito, com um leve sorriso no rosto. Só faltavam as asas para ser um anjo. Mas como não precisamos de asas e nem de capa para voar, ela realmente era uma anjinha. Fui até ela, dei um beijo e minha mãe rapidamente me tirou de lá.

Nunca mais voei.

Não, eu não pude

Karina Sgarbi



Vai acontecer daqui a duas horas. Antes, uma festa de aniversário de um amigo em comum. Eles vão chegar separados, mas já trocam beijos há algum tempo. Vão ficar um pouco para disfarçar, até a hora de cantar parabéns, talvez um tanto mais. Ou, quem sabe, nem isso. Sairão sorrateiros. Ele tomou emprestado o carro do pai, passou a tarde de sábado lavando, polindo. Ela pintou as unhas, fez escova no cabelo, colocou uma lingerie nova. Vermelha.

Eu queria ter voz agora. Gritar para que não acontecesse o que ainda não aconteceu, mas vai acontecer. Evitem essa noite! Mas não, eu não pude.

São dez e meia da noite de uma sexta-feira de verão numa casa grande de um bairro de classe média. A festa está cheia de gente. Todos jovens, bem arrumados, bêbados, alguns drogados. Acho que eles acham bom ser assim. Que seja. Olha, ela chegou com duas amigas. Vestido azul com estampa de flor. Que linda! E há ainda aqueles olhos castanhos grandes, expressivos, profundos. Olhos de verdade. Acho que sempre vou suspirar de amor quando pensar nela. E de encanto, também.

Pegou uma bebida, parabenizou o aniversariante. Vai tomar vodka com tônica. Olha agora o jardim, todas aquelas pessoas e nenhuma delas é a única pessoa que ela espera. Tenta se distrair, conversa futilidades com as amigas, reencontra um colega do qual não recorda sequer o nome mas finge lembrar, bebe outro drink. Faz calor. Ela espera.

Não é coragem que me falta para ir até lá e impedir tudo. Se ela soubesse como vai ser daqui em diante, certamente recuaria. Mas não, eu não pude. Passa das onze. Ele ainda não veio. Ah, como eu queria que ele jamais chegasse.

A música está alta. Alguns dançam, foi apagada a maior parte das luzes. Acho que eles têm vergonha de se mostrar. Ela quer acompanhar as amigas, deixar o corpo seguir o embalo do som. Como ela é linda, mesmo ali parada, com o copo na mão esquerda, dividida entre as risadas provocadas pelas coreografias à sua frente e pela angústia da espera de alguém que ela acredita amar. Tola, estúpida!
Bem, já não é mais preciso olhar a festa. Ele chegou. Camiseta verde com estampa de umas pranchas de surfe fixadas na areia de uma praia qualquer, calça jeans escura. Ele é horrível. Entra na casa e sua primeira ação é encher um copo com cerveja, mas é claro que já está bêbado. Ninguém pode saber do romance. Não, não posso chamar isso de romance. Ninguém pode saber desse envolvimento. Assim fica mais adequado. O maldito tem namorada, que é amiga também de todos que estão ali. Mas a garota está viajando com a família. Ele prometeu ser fiel, se comportar. Todos sabem que isso não vai acontecer, só ninguém sabe com quem vai ser.

Ela o cumprimenta de forma discreta. Ele faz sinal para irem ao jardim. Lá, em uma única frase, indica o planejamento da noite. Ela sai sem ser vista, obedece à risca: em menos de dois minutos já está escondida no veículo. Ele demora para vir. Se eu pudesse o teria segurado, a teria sacado do carro. Mas não, eu não pude.

Meia hora depois, ele chega. Bate o arranque e sai acelerando mais do que o necessário. Não diz uma palavra. Ela ameaça levantar e, de pronto, ele reage com a mão direita a empurrando para baixo. Estava a olhando pelo retrovisor. O percurso dura uns 20 minutos, está quase na hora.

Motor desligado, freio de mão puxado. Em volta, silêncio, árvores e as estrelas. A lua se esconde. Ela tem medo de levantar, não quer ser empurrada novamente. Mas quer seguir com o planejado, há dias que pensa nesse momento. Ele diz que ela pode sentar no banco da frente. Não fala mais nada. Olha para ela e começa a tirar a roupa, dele e dela, ao mesmo tempo. Está com pressa, é grosseiro, não é como ela esperava. Ela quer dizer que gosta dele, que a noite é especial, que está feliz de estar ali. Que aguarda ansiosa pela volta da namorada, pelo término da relação, pelo começo do amor deles de forma livre, sem esconderijos. Mas não consegue proferir uma só palavra.

A pele clara e sensível dela fica vermelha onde ele aperta. Ela tenta afastar, não consegue. Quer gritar, pedir para parar. Ele não deixa, a cala com beijos forçados, a impede entrando no seu corpo sem que ela deseje, sem que ela permita, sem que ela se defenda.

Eu queria poder parar isso. Bater nele até minhas mãos sangrarem. Mas não, eu não pude.
Ela não sabe ainda, mas já pressente que se relacionar com ele é e sempre será ruim. Ele vai bater nela quando souber que engravidou. Vai socar a barriga dela para matar o filho que ele não quer. Mas não vai adiantar. A criança vai nascer.

Escândalo. Eles vão casar, forçados pelos pais, porque é assim que acham que deve ser. Ele vai beber mais e mais, todos os dias. Ela vai usar maquiagem para esconder os hematomas. O filho vai chorar todas as noites.

Numa delas, ele, impaciente, bêbado, raivoso, vai pegar uma arma, aquela que ganhou numa aposta com o Luiz no bar. Vai brincar de roleta russa. Colocar uma bala e testar a sorte de vida da família que ele nunca quis - e que nunca quis alguém como ele.

Eu, então aos seis anos de vida, vou ter sorte. O disparo sairá em falso. Ela, então aos 21, terá mais sorte ainda. O tiro acertará em cheio seu peito.

E se eu não sair daqui?

Sheila Simões



Minha mãe vive dizendo que não aguenta mais: “quando vai chegar a hora desse menino nascer?” Bem, não tenho a menor ideia do que ela quer dizer com isso, confesso. Por mim, está ótimo, não preciso ir a lugar nenhum. Durmo e acordo quando quiser, soluço pra passar o tempo, dou uma espreguiçada e chupo meu dedão. Como posso querer outra vida? Sair dessa bolha de água quentinha, nem pensar!

Apesar de ultimamente ter ficado meio apertado por aqui, acho que ela andou comendo demais. Olha só, rapaz, não posso nem esticar as canelas e, logo chuto essa parede.

Outro dia, levei o maior susto, parecia um terremoto, ela sacolejava sem parar e um som muito alto invadiu meus ouvidos. Acho que começou uma aula de dança e esqueceu que eu ainda estava aqui.

Minha sorte foi logo ela precisar fazer xixi, então aproveitei para avisar que não estava dando para aguentar. Dei um chutão para avisar que tem gente em casa! Se vai continuar pulando, vou precisar fazer um cinto de segurança com este cordão da minha barriga. Brincadeira, minha mãe é legal.

Algumas vezes, parece que ela fica triste e chora bastante. Ela soluça como eu, quando diz, alisando a barriga, que falta dinheiro para comprar minhas fraldas, meu berço, minhas roupas. Que vai telefonar para aquele cafajeste - a voz dela aumenta o tom nessa hora e ela fica brava – e avisar que ele vai ser pai.

Pai? Já ouvi alguém perguntar: “quem é o pai?” Ela responde que é produção independente – “este menino só vai ter mãe”. Por mim tudo bem, posso ficar aqui dentro numa boa, a gente vai levando a vida, juntinhos. Prometo que chuto mais devagar quando ela ficar velhinha.

Uma vez por mês ela vai ao mesmo lugar falar com alguém com um nome engraçado – o doutor. Eles conversam sobre mim e sobre um tal de parto. O doutor falou para ela que tem tudo para ser natural e, quando for a hora, deverá vir com alguém para o hospital. Que hora será essa? Não me importo, meu lugar está reservado, a qualquer hora vou estar sempre aqui.

Hoje à noite minha mãe falou ao telefone com alguém que ela conhecia bem, reclamou irônica: “tá sumido hein?” Ela chorou de novo e disse para a pessoa vir saber qual era a novidade. Desligou logo o telefone. Penteou os cabelos, alisou a barriga e suspirou. De repente, alguém veio falar com minha mãe. Ela falou: “entra”.

Foi estranho, porque outra mão começou a alisar a barriga dela e uma voz grossa falava com a boca grudada na pele: “oi meu filho, sou seu pai”.

Será que era o “aquele cafajeste” ameaçando a mamãe? Opa, espera aí! Não se meta com a gente, eu chuto bem forte. Foi só fazer isso e ele tremeu de medo, porque começou um corre, corre, ela andava meio esquisita, com as pernas abertas, segurando a barriga e dizendo: “vai nascer, vai nascer!”