E se ele atravessasse a linha?

V.B. Felipe


Esta é uma carta de confissão. Mãe, pai, eu sinto muito. Eu assassinei uma pessoa, uma desconhecida com quem eu jamais troquei uma única palavra. Eu a via todos os dias, voltando do colégio. Todos os dias, no mesmo horário, ela passava por mim como se eu fosse nada. Mas isso não importava, porque ela também era nada para mim. Menos que nada. 

Acho que nunca tive uma ereção tão intensa quanto naqueles últimos segundos em que sua vida expirava sob minhas mãos. E, quando ela finalmente deixou de respirar, eu sabia que nunca mais iria parar. Atravessei a linha imaginária que eu mesmo havia riscado em minha frente quando era apenas uma criança. 

Vocês sempre souberam, não é? Por favor, não se culpem. Eu não poderia ter tido pais melhores. Mas isso não foi suficiente para evitar que eu os odiasse profundamente. Percebem agora? Vocês seriam os próximos. Talvez não agora, talvez não amanhã, mas um dia com certeza. 

Sugiro que vocês liguem para o número que está em cima do criado-mudo antes de seguir adiante. 

Certamente quem atendeu foi uma garota chamada Thaís. Thaís, meus caros, iria morrer amanhã à noite. Estão aliviados? Estão reconfortados? Não fiquem. Finalmente percebi que não conseguiria mais evitar. 

Então, não se sintam culpados. Eu fiz isso por vocês, fiz por Thaís, fiz por cada uma das pessoas que conheço e viria a conhecer. Quero que chamem a polícia e, quando eles chegarem, vão encontrar meu corpo no quarto. Aconselho que não entrem, um cadáver enforcado não é algo bonito de se ver. Eu sei, eu estudei. Era assim que iria matar você, mãe. 

Então é isso. Lembram-sedaquela linha que tracei em minha frente anos atrás? Eu parei em cima dela. Espero que sintam orgulho de mim porque, com este ,ato eu salvei diversas vidas. E alguém que salva vidas só pode ser considerado um herói, não é?

O Portão

Raquel Cristina Gervino Gale






Roberto Carlos

Fazia quinze anos que tinha estado na cidade pela última vez. Não teve a coragem de voltar antes, não suportaria a dor que viria à tona.
Lembrava-se de tudo como se o tempo não tivesse passado. O portão de ferro batido, pesado, enferrujado e trabalhado em estilo barroco. O quintal, o pomar, o coreto, o cheiro das roseiras.
Em meio às lembranças e embalado pelo movimento constante do ônibus, pegou no sono. Quando acordou já estava na rodoviária. Desceu procurando um táxi e deu logo o endereço que nunca foi capaz de esquecer.
— Alameda dos Oitis, número 11, por favor.
— Casa da D. Mariana Guerra?
— Isso.
— O senhor não é o Fernando, filho da D. Cássia?
— Sou eu. Nos conhecemos?
— Sou o Torquato. O senhor não lembra de mim, mas eu lembro do senhor. O senhor sumiu!? Mas tá a mesma coisa....
— Obrigado.
Ao virar na Alameda dos Oitis, o motorista não se conteve e entrou nos particulares que ensaiava abordar desde que reconheceu o passageiro.
— O senhor Fernando sabe que D. Mariana nunca mais saiu de casa desde que o senhor foi embora? — olhou o passageiro pelo retrovisor, cobrando resposta.
Fernando ficou calado, desviou os olhos dos do taxista.
— Acho que é doente de tristeza, Sr. Fernando! Vocês formavam um casal tão bonito, pareciam tão felizes. Se o senhor me permite, por que ir embora tão de repente?
— Pois é, Torquato.... É a vida, às vezes é ela que faz planos pra gente. — Avistou o portão se aproximando.  — Aqui está ótimo. Obrigado.— Pagou, despediu-se sem mais intimidades e saiu do carro.
De frente à casa, colocou a mala no chão e sentiu como se nunca tivesse saído dali. Empurrou o portão e o Duque veio recebê-lo. Pulava e abanava o rabo como sempre, só que agora com mais vagar. Abraçaram-se como velhos amigos!
Caminhou lentamente pelo corredor de gardênias até a porta, que estava aberta. De fora, viu a foto do casamento ainda na parede, amarelada pelo tempo.
O clima de dejavù foi quebrado repentinamente pela batida retumbante de uma bola de futebol contra a parede do corredor. Na sequência, um bater de pés barulhento e apressado. Os dois se estranharam e permaneceram imóveis por alguns instantes.O peito apertou e a dor foi lancinante.
— Mãaaae, tem um homem aqui na sala!

E se não fosse um lobo mau?

Carol Silva




Chapeuzinho Vermelho não era seu verdadeiro nome. Só era chamada assim por causa daquela capa medonha que a mãe fazia ela vestir toda vez que saia de casa. Chamava-se Leila, um nome que a agradava muito, mas que ela só ouvia quando a professora fazia a chamada ou quando conversava com sua avó. Usava a capa para ir à escola, ao armazém e a casa da vovó, os únicos três lugares que a mãe lhe permitia ir sozinha.

De todas as atividades, a que mais gostava era ir visitar sua avó e fazia isso todos os sábados de manhã, levando bolinhos feitos pela sua mãe. Era sagrado, todo sábado, sem falta. A avó estava sempre pronta para recebê-la. A mesa do café posta com aquelas xícaras de porcelana que ela adorava, os talheres antigos de prata e a toalha de renda branca tão cheirosa. Ficava horas ouvindo as histórias da vovó sobre sua viagem de navio, quando veio da Europa sozinha para o Brasil, ou de quando lutou em defesa dos direitos das mulheres. A vovó também falava do avô, um homem muito bom, que havia sido seu maior encorajador para que ela estudasse e tirasse seu diploma. Ficava imaginando como era esse homem, que ela nem havia conhecido, pois morrera muito tempo antes de ela nascer. Às vezes, Chapeuzinho sentia pena da vovó, vivendo naquela casa, sozinha, tão afastada de todos. No entanto, a vovó sempre dizia gostar muito do seu estilo de vida.

Um sábado, Chapeuzinho amanheceu com uma indisposição estomacal e não pôde fazer sua habitual visita. Passou o dia de cama, se recuperando. No domingo, acordou bem e implorou para sua mãe que a deixasse ir até a casa da vovó, que deveria estar profundamente preocupada, já que não havia aparecido no dia anterior. Depois de muita argumentação, a mãe deixou. Preparou a cesta com os bolinhos e pediu que a filha não demorasse. 

Quando chegou a casa de sua vovó, Chapeuzinho empurrou a porta, que estava sempre aberta. Ficou muito feliz quando viu a mesa já posta para duas pessoas, como se a vovó já imaginasse que ela viria. Foi entrando e chamando sua avó. A casa era muito pequena, então ela só podia estar no quarto. Empurrou a porta do quarto, fazendo um rangido. Ao mesmo tempo, Chapeuzinho viu um vulto saltar da cama e parar ao lado da janela e quando olhou para a cama viu sua avó cobrindo o corpo até a altura do nariz. Olhou para o outro lado e viu um senhor, sem camisa, de calça jeans, sorrindo meio sem graça. Chapeuzinho deu alguns passos para trás, ainda observando a cena e depois correu em direção a sua casa.

Enquanto corria, uma sombra avermelhada a perseguia, efeito da sua capa esvoaçante. Ela sentia algo lhe apertando, mas não sabia ao certo se era dentro ou fora da garganta. Decidiu desatar o nó da capa e soltá-la de seu corpo, deixando para trás o pano encarnado no meio da floresta.