E se eu não tivesse roubado?




 Cintia Aquino

Todo o esforço do trabalho do meu velho, como carinhosamente passei a chamar papai na vida adulta, era para pôr comida na mesa, comprar roupas e, se fizesse hora extra, algum material escolar para mim e meus quatro irmãos. Terminei o colegial na década de cinquenta, como de costume haveria uma cerimônia de colação de grau organizada pela escola, mas financiada pelos pais dos alunos. Toda a pompa da solenidade da formatura não me fazia falta, mas eu ansiava que papai se orgulhasse de mim. Queria que ele me olhasse com o mesmo olhar de admiração que contemplava os graduados no anuário da escola. Daí surgiu a ideia que valeu aquele sorriso!

Era tarde da noite quando eu e o Robinho, meu melhor amigo de infância, escalamos o muro da escola e pela janela do pátio invadimos a sala da diretoria. Tiramos do armário duas becas de formatura e um capelo azul com um pingente de cetim branco na quina. Mãos trêmulas e corações acelerados, pulamos o muro de volta e corremos para nossas casas. Na manhã seguinte, reencontrei o meu cúmplice e fomos bater na porta do único fotógrafo da cidade: "Seu Didi, o senhor poderia tirar nossa foto? Não temos dinheiro para lhe pagar, mas podemos lavar o carro do senhor e capinar o seu jardim”. Enquanto esperávamos ansiosos pela resposta, o Sr. Dimaceno nos olhava desconfiado, com a testa franzida, enquanto eu torcia para que ele aceitasse a proposta sem fazer perguntas. O medo de ser questionado e de que toda a história fosse parar nos ouvidos de papai faziam com que meu coração pulasse tanto quanto na noite anterior.

Fotos batidas, restava agora retornar as becas sem que notassem que elas passaram um dia fora do armário. Assim logramos. Respirei aliviado. Quando as fotos ficaram prontas, o Sr. Dimaceno foi entregar pessoalmente lá em casa e quem atendeu ao portão foi papai. Só então me dei conta de que não existe crime perfeito. Esquecemos de pedir segredo ao fotógrafo.

Me escondi atrás da porta com medo da reação de papai ao ver a fotografia. Eu não conseguia ouvir o que o Sr. Dimaceno conversava. Mil coisas se passavam pela minha cabeça, inclusive fugir para não ter que encarar as consequências do que eu tinha feito. Para minha surpresa, papai sorriu e seus olhos encherem de lágrimas ao me ver vestido de beca e capelo naquela fotografia. O momento de emoção foi breve, logo veio uma enxurrada de perguntas e demandas por explicações. Lembro-me do sermão e a dor do castigo, mas sei que se eu não tivesse roubado a beca, eu não teria visto o meu velho esconder aquele sorriso de orgulho em nome de sua coerência moral para repreender o meu mal feito.






Mulher como te vejo



Maria de Lourdes Chauffai

É mãe, filha, tia ou prima
Trabalha fora e em casa
Onde mantem o bom clima
Mas, deixa acesa a brasa.
Corre para arrumar as crianças
Faz o lanche para o recreio
E limpa todas as lambanças
Cuidando até do problema alheio.
Se é Ana, alivia a angústia e afaga a alma de alguém.
Se é Beatriz, beija a beleza do benzinho no berço.
Se é Camila, caminha calmamente construindo sua carreira.
Se é Denise, desfaz a desilusão da dolorosa derrota.
Se é Elisa, entrega o elixir a seu elegante elenco.

É madrasta, sogra, esposaou neta
Lava roupas, faz comida.
Gosta de andar de bicicleta
E aguar a linda margarida.
Discute com o gerente do banco
O cheque foi devolvido
De raiva, quase bate o tamanco
E pode dar a isso um apelido.
Se é Fernanda, felicita com fervor o fabuloso feito da família.
Se é Gertrudes, gesticula na gigantesca ginástica germinativa.
Se é Helena, hesita hipnotizar o hercúleo homem.
Se é Iara, iguala a índole incrédula dos ímpios.
Se é Judite, com juízo justifica o juramento de justiça.

É avó, sobrinha, enteada ou nora
Prende botão, passa ecerze roupa.
Pinta os olhos, penteia o cabelo.
Não pode sair desalinhada como louca
Seja lá qual for o atropelo.
Se é Laura, labuta na lide levando a láurea.
Se é Maria, marcha machucada mastigando a mágoa.
Se é Nair, navega num navio de névoas e nervuras
Se é Ofélia, oferece oferendas no ofertório.
Se é Patrícia, pacatamente pacifica a paciente.

É amiga, amante ou a outra
Age sempre como profissional
Não carrega culpa, mas fica cansada.
Ainda acha tempo paraa caminhada.
Lê e sonha com lugares paradisíacos
Todavia a realidade da sua estrada
Nunca a leva além do cheiro de amoníaco.
Se é Quitéria, quita quieta a questão da quinta.
Se é Renata, renasce rente à relva, resignada.
Se é Silvia, silencia o silvo do símio silvestre.

É irmã, companheira ou afilhada
Com tal empreitada se sente ilhada
Dos filhos que tanto amou
Apenas lembrança restou.
Se é Úrsula, urge usar a urca e usufruir de utopia.
Se é Vera, verbaliza a verdade sem vergonha.
Sé Xênia, xinga o xale que xumbrega o xaxado.
Se é Zilda, ziguezagueia zonza com o zumbido zureta.  
Mulher é tudo ou é nada
Depende do nome e da jornada.



E se o tempo pudesse voltar




Kelly Santos

Se o tempo pudesse voltar, estaria com sete anos de idade em minha casa aconchegante e confortável. Ficaria com o olhar fixo no relógio de parede da cozinha, contando as horas para papai chegar, não sabia olhar as horas naquele relógio, mas decorei a posição exata dos ponteiros só para vê-lo abrir a porta. Mamãe estava sempre ocupada com os serviços do lar e não tinha muito tempo para mim, nosso velho labrador só queria ficar deitado perto do sofá, já estava sem força para aguentar meu pique. Então, ao contrário da maioria das crianças o melhor momento do meu dia era fazer a lição de casa com meu pai, um homem muito inteligente e amável ao contrário de mamãe, ele tornava tudo tão simples e agradável fazendo minha dificuldade desaparecer no momento que sentava ao meu lado para começarmos nossa aventura pelo mundo do conhecimento.

Papai agia de forma diferente comigo, sempre me dizendo o quanto eu era inteligente e capaz de superar todos os desafios em minha vida. Não entendia bem por que falava aquilo e mesmo sem entender aquelas palavras, me sentia a menina mais forte do mundo. Ele encenava todas as histórias e dávamos muitas risadas, mamãe às vezes passava pela porta do quarto e olhava para nós como se estivéssemos loucos. Depois de terminado o dever de casa papai como sempre ia para seu escritório ler o jornal.Lembro de todas as noites chegar o rosto na porta só para vê-lo antes de dormir, como já sabia de minha atitude me olhava por cima dos óculos e sorria para mim.

Um certo dia enquanto tomávamos café da manhã papai me disse que faria uma viagem, pois vovó não estava bem e pediu para ele ir em sua casa, fiquei muito triste, minha lição de casa seria sem graça e sem emoção e como falou que iria demorar uns dias, meu passeio de sábado no parque também seria adiado. Ainda consigo sentir o beijo que me deu antes de sair e o abraço apertado que dei nele, corri para o portão e fiquei olhando meu pai até dobrar a esquina em seu carro novo.


Passado alguns dias voltei a olhar fixo para os ponteiros do relógio até ficarem na posição que já conhecia e mesmo assim papai nunca mais voltou se o tempo pudesse voltar naquela manhã, eu não teria deixado meu pai sair, teria escondido a chave do seu carro ou se isso não fosse possível teria ido com ele.