Vida Dura

Catia Schmaedecke


Os Retirantes _ Cândido Portinari – 1944 - Óleo s/ Tela. 190 x 180 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

De certeza que é de fome
O pranto forte dessa gente

Meia volta ou volta e meia
Ficam todos descontentes

Tanto faz se é puro o pão
Ou recheado de melado

Sobe e desce a ladeira
O pai sempre desempregado

A mãezinha coitadinha
Lava a roupa do patrão

Vira a noite cozinhando
Refogado de feijão

Vai à feira, faz a xepa
Sente orgulho da labuta

À família presta contas
Nunca foi prostituta

Em terreno de miséria
Honestidade é medalha

Reza forte e chama o santo
Não precisa de migalha

Filho Ben acorda cedo
Vê o dia amanhecer

O chinelo é de dedo
A escola é seu lazer

Quando alguém lhe oferece
Boa quantia em dinheiro

Na favela anoitece
E ele vira cangaceiro

Exibe relógio novo
Sorriso com dente de ouro

Olhar duro para o povo
Cabelo pintado de louro

Em país de terceiro mundo
Carro de luxo é ostentação

Cruzeiro pelo Atlântico
Não tem explicação

Certa noite de lua cheia
A polícia bate forte

Ben rola morro abaixo
Provocando a sua morte

O pai na calçada chora
A revolta corrói seu peito

Lembra-se de que outrora
Tudo era tão perfeito

O casal em comunhão
Reúne a pouca mobília

Retornam para o sertão
E formam nova família


Hashtag carpe diem

Beatriz Ferraz Lopes Ré



Acorda.

A selfie sem maquiagem.
34 curtidas.
A selfie pra mostrar a roupa do dia.
45 Curtidas.
A selfie no metrô lotado.
67 Curtidas.

A foto da mesa de trabalho, lotada de papéis.
A foto do prato do almoço.
A foto da torta de sobremesa.
A selfie com os amigos do trabalho.
A foto do cafezinho.

O machucado no pé depois de batê-lo na mesa.
Foto.
O pôr do sol entre prédios.
Foto.
Os copos de cerveja do happy hour no bar da esquina.
Foto.

O cachorro pedindo carinho.
O livro de cabeceira que lê antes de dormir.

Foto.
Foto.
Foto.
Foto.

Foto.

546 curtidas no total.

Apaga a luz.

Sorri.

O investigado

Arnaldo Antunes



– Bom dia, o senhor mandou me chamar?
– Ah, oi… bom dia, Carlinhos. Entre, entre. Feche a porta, por favor. Há quanto tempo está no partido? Uns dois anos?
– Ainda vai fazer um ano, senhor.
– Pois é, já tá na hora de se envolver mais nas questões importantes, de assumir mais responsabilidades, entende?
– Sim, claro. Concordo plenamente.
– Então, pensando nisso a gente resolveu contar com a sua colaboração. Você gosta de viajar, não gosta? Pois é, quem não gosta? Manter um partido com a nossa importância é muito complicado, sabe?
– É… imagino.
– A gente sempre precisa contar com a ajuda de alguns parceiros que fazem parte do nosso grupo político, mesmo sem ser filiado, entende? Eles também participam do nosso projeto de substituir esse governo incompetente e corrupto que está aí.
– Pode contar comigo, senhor.
– Tenho certeza disso. A gente precisa que você pegue um valor… coisa pouca, sabe? Um certo valor com um pessoal lá de Minas Gerais e traga pra cá. Só isso. Já compramos uma passagem pra você. Seu ônibus sai amanhã pela manhã.
– Tudo bem, mas não seria mais fácil depositar na conta do partido e economizar a viagem?
– É uma coisa de princípio, sabe? Não gosto de dar dinheiro pra banqueiro. Os caras são uns verdadeiros ladrões. E a gente é que leva a fama.
– Ok, mas não era o Oliveira que fazia isso?
– Era, mas ele tá cuidando de outras coisas agora. Assumindo novas responsabilidades. Igual a você. Não fique preocupado com nada. Vou até ligar pra Isabel, pra ver se ela já tá cuidando de tudo.
– Alô? Belzinha, querida?
– Fala, meu presidente… é sobre aquele assunto do Carlinhos?
– É, eu estou com ele aqui no viva-voz. Já adiantou a documentação pra doação daquele fazendeiro?
– Tá tuuudo certo. Nos conformes.
– Obrigado, querida. Tchau, tchau.
– Viu? Não tem com o que se preocupar. Vamos almoçar juntos? Ainda temos alguns detalhes para acertar.
– Desculpe, senhor, mas o Toledo já me convidou e eu fiquei sem jeito de recusar.
– O quê? Tá se bandeando pra facção rival? Brincadeira… O Toledo é parceiro demais. É gente nossa, sabe? Então, a gente se reúne depois do almoço.

********************

– E aí, como é que foi? Fez o que eu te pedi?
– Você estava certo, Toledo. Eu tinha que gravar mesmo.
– Eu te falei, garoto, conheço esse pessoal. Bom, vamos conversar durante o almoço. Agora sei que você é um cara leal. Tenho um cargo que pode te interessar.