Preso por crime de prosa

Felipe Basso

Simplesmente não vejo razão
Desta tal de poesia existir
Parece coisa de gente indecisa
Que não sabe se fala ou se canta
E por fazer nem uma cousa nem outra
De azar inventou o poema

Me nego a rimar um só verso!
Não sou homem de falar enfeitado
O negócio é ser reto e direto
Afinal, linguagem não precisa figura
E não é que de só reclamar
Eu também acabei de rimar?

A pior das rimas é aquela encadeada
Dá uma trancada na prosa do povo
Causa até calombo no canto da bocada
Diz a gente mais letrada que é a tal da aliteração
Anacoluto, não sei se não é palavrão
Anáfora é uma confusão. É isso. É aquilo. É cheio de pontuação
Óh ceus! Livrai-me da apóstrofe
Que de catástrofe já me chega a inversão
           
Metáfora, hipérbole, prosopopeia e até sinestesia
Servem só de guia pra dizer nada com nada
E é aqui que a chave do problema se esmiuça
Pois nem que a vaca tussa feito um homem acamado
Eu serei chamado de poeta ou usarei qualquer figura
Essa linguagem um tanto dura que prende o meu palavreado
Preso por um crime já julgado, com sentença apalavrada

Que afeta todo mundo, mas somente eu saio culpado

Vida Dura

Catia Schmaedecke


Os Retirantes _ Cândido Portinari – 1944 - Óleo s/ Tela. 190 x 180 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

De certeza que é de fome
O pranto forte dessa gente

Meia volta ou volta e meia
Ficam todos descontentes

Tanto faz se é puro o pão
Ou recheado de melado

Sobe e desce a ladeira
O pai sempre desempregado

A mãezinha coitadinha
Lava a roupa do patrão

Vira a noite cozinhando
Refogado de feijão

Vai à feira, faz a xepa
Sente orgulho da labuta

À família presta contas
Nunca foi prostituta

Em terreno de miséria
Honestidade é medalha

Reza forte e chama o santo
Não precisa de migalha

Filho Ben acorda cedo
Vê o dia amanhecer

O chinelo é de dedo
A escola é seu lazer

Quando alguém lhe oferece
Boa quantia em dinheiro

Na favela anoitece
E ele vira cangaceiro

Exibe relógio novo
Sorriso com dente de ouro

Olhar duro para o povo
Cabelo pintado de louro

Em país de terceiro mundo
Carro de luxo é ostentação

Cruzeiro pelo Atlântico
Não tem explicação

Certa noite de lua cheia
A polícia bate forte

Ben rola morro abaixo
Provocando a sua morte

O pai na calçada chora
A revolta corrói seu peito

Lembra-se de que outrora
Tudo era tão perfeito

O casal em comunhão
Reúne a pouca mobília

Retornam para o sertão
E formam nova família


Hashtag carpe diem

Beatriz Ferraz Lopes Ré



Acorda.

A selfie sem maquiagem.
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A selfie pra mostrar a roupa do dia.
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A selfie no metrô lotado.
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A foto da mesa de trabalho, lotada de papéis.
A foto do prato do almoço.
A foto da torta de sobremesa.
A selfie com os amigos do trabalho.
A foto do cafezinho.

O machucado no pé depois de batê-lo na mesa.
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O pôr do sol entre prédios.
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Os copos de cerveja do happy hour no bar da esquina.
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O cachorro pedindo carinho.
O livro de cabeceira que lê antes de dormir.

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Apaga a luz.

Sorri.